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Lula é eleito e fala em reconquistar credibilidade diante de investidores

Em 2º turno, o ex-presidente venceu Jair Bolsonaro, que tentava reeleição.

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O candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi eleito presidente da república do Brasil neste domingo (30), em segundo turno contra Jair Bolsonaro (PL), que tentava a reeleição. Com 99,85% das urnas apuradas, o petista teve 50,90% dos votos válidos (60.251.829 votos), contra 49,1% do adversário (58.130.778 votos). Os números são do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O vice-presidente eleito é Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo. Lula fará o terceiro mandato como presidente do Brasil, após ter sido eleito em 2002 e 2006. É o primeiro presidente a exercer três mandatos na história democrática do país.

Lula é cercado por apoiadores em Curitiba 17/09/2022 REUTERS/Ueslei Marcelino

Em discurso em São Paulo após o anúncio da vitória, Lula agradeceu seus apoiadores. O presidente eleito afirmou que o “compromisso mais urgente” é acabar com a fome.

Lula também voltou a citar promessas feitas durante a campanha, como “um salário justo reajustado sempre acima da inflação”, e disse ainda que deve “retomar o programa Minha Casa, Minha Vida, com prioridade para pessoas de baixa renda”.

O presidente falou que “a roda da economia vai voltar a girar”, citando medidas como apoio a pequenos e médios produtores rurais, incentivos aos micros e pequenos empreendedores erenegociação das dívidas das famílias.

Também no discurso, Lula disse que “vamos reconquistar a credibilidade para que investidores estrangeiros retomem a confiança no país” e deixem de enxergar o mercado brasileiro apenas como oportunidade de lucro para o curto prazo.

Tensões no dia de votação

O segundo turno das eleições de 2022 se deu em meio às tensões envolvendo a Polícia Rodoviária Federal (PRF). O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, chegou a cobrar explicações imediatas do diretor-geral da PRF, inspetor Silvinei Vasques, sobre supostas operações do órgão que poderiam estar dificultando o transporte de eleitores, em descumprimento a decisão da própria corte.

Moraes decidiu na noite de sábado (29) proibir que a PRF realizasse, até o fim do segundo turno, qualquer tipo de operação relacionada ao transporte público, gratuito ou não, de eleitores. Apesar da decisão, diversas denúncias foram recebidas pela campanha de Lula de que agentes da PRF estariam realizando operações para evitar o trânsito de ônibus e, com isso, aumentar a abstenção de eleitores, principalmente no Nordeste, segundo a coligação do candidato petista.

Em coletiva de imprensa na sede do TSE, em Brasília, Moraes disse no final da tarde que, apesar de poder haver algum atraso, todos os veículos abordados pela PRF seguiram seus percursos e não retornaram à origem, sem prejuízo aos eleitores além de algum pequeno atraso

Resultado x pesquisas

Presidente Jair Bolsonaro e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva 04/10/2022 e 29/07/2022 (Fotos: Adriano Machado e Ueslei Marcelino/Reuters)
Presidente Jair Bolsonaro e ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva 04/10/2022 e 29/07/2022 (Fotos: Adriano Machado e Ueslei Marcelino/Reuters)

O resultado da eleição deste domingo confirma a tendência mostrada pelos números de pesquisas de intenções de votos. Diferentes pesquisas divulgadas neste sábado (29) apontaram uma vantagem numérica de Lula na disputa para o Palácio do Planalto. No entanto, a margem foi mais apertada que o previsto.

Entre os principais levantamentos mais recentes, o que mostrava a maior vantagem de Lula sobre Bolsonaro era do Ipec, com 8 pontos de distância. Segundo a pesquisa, o petista teria 54% dos votos válidos, contra 46% do adversário. 

Já a pesquisa que apontava menor distância entre os dois, de 2,2 pontos percentuais, era a da CNT/MDA, segundo a qual Lula teria 51,1% e Bolsonaro, 48,9%. 

A diferença entre o resultado e a projeção das pesquisas é semelhante ao que ocorreu no primeiro turno, quando o resultado da votação mostrou uma disputa mais apertada entre Lula e Bolsonaro do que o previsto.

Propostas de campanha

19/10/2022 REUTERS/Diego Vara

Emcarta aberta divulgado na quinta-feira (26) e intitulada “Para o Brasil do amanhã”, Lula elencou 13 propostas para diferentes setores do país, alguns deles já mencionados em seu plano de governo.

Dentre os pontos destacados, Lula apontou que seu governo, se vitorioso, irá “combinar responsabilidade fiscal, responsabilidade social e desenvolvimento sustentável” e que “seguirá as tendências das principais economias do mundo”.

Além disso, o texto afirmava que “o sistema tributário não deve colocar o investimento, a produção e a exportação industrial em situação desfavorável, nem deve penalizar trabalhadores, consumidores e camadas de mais baixa renda”. O candidato também propõe Imposto de Renda zero para quem ganha até R$ 5 mil, que será acompanhado de uma reforma tributária.

O documento também cita a construção de uma “nova legislação trabalhista assegurando a competitividade e os investimentos das empresas”.

Também menciona a criação do programa “Empreende Brasil, com crédito a juros baixos para os batalhadores das micro, pequenas e médias empresas” e o “Desenrola Brasil, para renegociar as dívidas de milhões famílias que estão inadimplentes, oferecendo grandes descontos e juros baixos”.

Lula também fala em salário-mínimo com crescimento todo ano acima da inflação e o auxílio de R$ 600 “como valor permanente, além de R$ 150,00 para cada criança de até 6 anos de idade”.

A carta também fala em uma política industrial que apoia a inovação e que as taxas de juros serão reduzidas no Plano Safra, no Pronamp e no Pronaf para produtores comprometidos com critérios ambientais e sociais.

Já entre as propostas do plano de Lula que não constam na carta, o plano de Lula divulgado ao TSE cita “o debate e as iniciativas de reestruturação sindical, que democratizem o sistema de relações de trabalho”, e diz que “respeitará a autonomia sindical”.

O documento fala também em “reconstrução da seguridade e da previdência social”, defendendo a “superação das medidas regressivas e do desmonte promovido pelo atual governo”. “Buscaremos ummodelo previdenciário que concilie o aumento da cobertura com o financiamento sustentável”.

O plano propõe a revogação do teto de gastos. “Vamos recolocar os pobres e os trabalhadores no orçamento. Para isso, é preciso revogar o teto de gastos e rever o atual regime fiscal brasileiro, atualmente disfuncional e sem credibilidade.”

Ainda entre as propostas para a economia, a campanha defendeu que “o país precisa de uma transição para uma nova política de preços dos combustíveis e do gás, que considere os custos nacionais e que seja adequada à ampliação dos investimentos em refino e distribuição e à redução da carestia.”

O plano também cita apoio à pequena e média propriedade agrícola, em especial à agricultura familiar. 

De líder sindical a presidente

lula
Cerimônia de posse de Lula em 2002. Crédito: Wikimedia Commons

Aos 77 anos de idade, o petista conquistou seu terceiro mandato à frente do cargo. Lula foi eleito pela primeira vez ao posto em 2002 e reeleito em 2006. 

O ex-metalúrgico começou a frequentar movimentos sindicais enquanto trabalhava em montadoras na região do ABC Paulista para reivindicar direitos trabalhistas. Com sua habilidade para discursar, em 1975, foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Como líder sindical, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) durante a ditadura militar.

Em 1989, após 29 anos sem eleições diretas no país, o PT lançou Lula como candidato para disputar a Presidência da República. Ele perdeu a disputa para Fernando Collor de Mello. Nas eleições seguintes, em 1994 e 1998, Lula voltou a se candidatar e foi derrotado pelo tucano Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Após se candidatar ao cargo presidencial pela quarta vez, Lula foi eleito ao derrotar nas urnas o candidato José Serra (PSDB) em 2002, com quase 53 milhões de votos.

Em 2006, ele derrotou o candidato tucano Geraldo Alckmin e foi reeleito. Seus governos ficaram marcados por grandes avanços sociais no país e desenvolvimento econômico. Lula criou programas como o Fome Zero e Bolsa Família para distribuição de renda entre os mais pobres, criou o Prouni para financiar educação superior no país, e o programa de habitação popular Minha Casa Minha Vida.

No entanto, sua gestão também ficou marcada por denúncias de corrupção que culminaram na operação Lava Jato.

Condenações e absolvição

Em 2016, o ex-presidente foi denunciado por usar dinheiro de propina para comprar um terreno para a construção de uma nova sede do Instituto Lula e um apartamento vizinho para ampliar seu imóvel em São Bernardo do Campo.

O ex-presidente foi condenado a 9 anos e seis meses de prisão pela operação Lava Jato, na qual foi acusado de receber dinheiro de empreiteiras envolvidas em esquema de corrupção da Petrobras. Ele foi preso em abril de 2018 e ficou recluso por 580 dias na sede da Polícia Federal de Curitiba, no Paraná.

Lula também foi condenado a 9 anos e 6 meses de prisão no caso tríplex do Guarujá, no qual era réu por recebimento de um apartamento de luxo como propina. No julgamento em segunda instância, sua pena foi aumentada para 12 anos e um mês.

Ele também foi condenado por 12 anos e 11 meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do sítio de Atibaia (SP) por obras de reforma realizadas pela empreiteira Odebrecht no sítio em benefício da sua família e ocultação de propriedade.

No Superior Tribunal de Justiça, sua pena foi reduzida para 8 anos, 10 meses e 20 dias de reclusão. Lula foi solto após o Supremo Tribunal Federal (STF) decidir que condenados em segunda instância poderiam recorrer em liberdade, em 2019.

Em 2020, Lula voltou a ser denunciado por lavagem de dinheiro no caso do Instituto Lula. Segundo o Ministério Público Federal, o instituto teria recebido R$ 4 milhões de doações da Odebrecht como propina disfarçada.

O processo foi suspenso em 2021. Lula recuperou seus direitos políticos após o STF anular todas suas condenações e declarar que as quatro ações contra ele não eram de competência da Justiça Federal do Paraná. Em agosto de 2022, ele oficializou sua sexta candidatura à presidência da República pelo PT.

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